segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Lama e lamúria.
Eu devia jogar fora o ursinho de pelúcia sujo de poeira e lavado de lembranças
Eu devia olhar pra frente e conseguir fazer diferente.
Mas é quase sempre do mesmo jeito.
Eu luto e sangro, só pra ver surgir o efeito.
E então prometi,
prometi seguir sem cair.
Só falta achar o corrimão da escada sem perdão
Só falta um pouco de ar pra respirar
Água pra hidratar
Tinta pra me pintar.
Só falta lua, só falta sono.
Só falta.
O que eu tenho?
A noite escura.
A noite cura?
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
A doida da Rua 14
Eu tenho que ir ali pegar o cortador de unha, ta precisando mesmo de uma poda... Não ta? Ou só tirar o esmalte já adianta? Estou bem pouco me lixando... Será que se eu lixar... Melhora?
Acho que ouvi alguém bater na porta. Pode entrar, meu senhor. O que deseja?
Quem? Alice? Não... Alice não morreu não. Sabe por quê?
*Sussurrando* Ela ta ali em cima, dormindo. É... Ali em cima sim! No meu quarto... Por isso que eu fico aqui na sala, entende? Você não entende... Não pode entender... E fala mais baixo senão ela desperta.
Ah... É tão lindo ver ela acordando... Aceita um chá?
Se aconchegue... Eu vou ali pegar o jogo de xícaras.
Esse aqui eu ganhei no meu casamento... De uma tia minha do Peru. Bonito, né?
Os outros quebraram na mudança. Meu marido, coitado, ficou arrasado quando viu que perdemos as taças também. Ele sempre falava que ia usar quando a Alice se formasse na faculdade.
Mas aí ela dormiu e nem viu... Ele foi comprar leite, e por sinal ta demorando. Que horas são, meu filho? Já são cinco horas? Ele prometeu que voltava às cinco.
E os dias passam, e as cinco horas vão aumentando... aumentando... e pin! Nada!
Eu nem sei porque ainda insisto em pentear os fios brancos da minha cabeça e lavá-los todo dia com meu shampoo de romã depois que descasco as cebolas.
Papai adorava. Mesmo já capenga, ele cheirava meus cabelos e chorava. Chorava tanto, o pobre. Dizia que tinha medo de enlouquecer também. E eu respondia:
- Papai, o problema é a transição entre a sanidade e a loucura.
Mas eu sei bem que era mentira.
Eu não sei de muita coisa, sabe... Eu acho até meio louco falar isso. Tenho medo da minha risada descrente. Só isso que eu sinto.
Cadê o cortador de unhas? Ele estava bem aqui.
Ah meu Deus, o cachorro já está latindo pra aquele maldito gato cinza da vizinha! Não sei porque cargas d’água ela não dá logo um veneno pra ele. Roubou meu queijo ralado, dia desses.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Diário de meia vida inventada.
Levantou, procurou o cheiro pelos lençóis, calçou os chinelos de pano e seguiu até a cozinha.
Lembrou das caixas de chá que deixara para trás depois que seguiu viagem, abaixou a cabeça lentamente, sentiu vontade de voltar pra casa.
Mas já estava nela.
Quarta-feira, 14 de janeiro de 2009.
Levantou, achou o cheiro pelos lençóis, vestiu a camiseta que se via no chão da sala e seguiu até a cozinha.
Deparou-se com a mesa posta, tomada por xícaras de todas as cores falidas ou com vida, levantou a cabeça lentamente, sentiu vontade de voltar pra cama e sorrir.
E o fez!
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Maldita (ou não) auto-afirmação!
Ou talvez nada além de Amor.
Eu sou Flor!
E nesse tempo aqui, espantando os insetos ou chutando os ratos, vi surgir (de dentro dos bueiros) a multidão suja e egoísta. Até que resolvi caminhar um pouco mais.
Sou da casa sem gente vazia, do cheiro de erva cidreira.
Das mãos munidas de força, caneta, papel e, por favor, uma xícara de chá.
Mundo mudo e imundo, manda aí uma verdade, um dó menor e alguma poesia.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Relatos de loucuras de amor em vão.
"Já cheguei a tomar seis copos de feijão com geléia de mocotó no gargalo, já me joguei na frente do trem... Já até tomei dois frascos de tinta nanquim! Sem contar a cola de sapateiro que passei no sanduíche."
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
E a rotina desatina...
Tomou uma xícara de chá amargo e foi pro trabalho. A mesma coisa de todos os dias: bater o cartão ao entrar pelo portão, trabalhar na linha de produção e voltar pra casa. Mas antes sempre passava na padaria. Três pães franceses, um sonho e uma coca-cola. Era bem raro comprar requeijão.
Ah! Requeijão era luxo. E não jogava fora o potinho, não.
Ia acumulando pra colocar tempero.
Cominho, noz moscada, orégano, salsinha e cebolinha... E se plantando tudo tinha!
A coca-cola era costume... Chamava até de neguinha.
Os pães eram devorados em dois tempos.
E o sonho que ele comprava, todo dia sobrava em cima da mesa.
(Mas dentro do quarto, o que sobrava era beleza!)
domingo, 28 de dezembro de 2008
Retroexpectativa.
Ainda consigo me lembrar do primeiro segundo do ano. Pode até ser um mero engano, mas foi doce. Depois de alguns minutos o doce ficou amargo, como se o manjar e a torta de mel se fizessem fel.
(...)
Dizem que o ano só começa depois do carnaval.
Pois bem, meu bem, pulei o carnaval sem dó nem piedade. Mal vi o movimento todo que se fazia na cidade. Com serpentes e serpentinas e já com essa idade, parecia que o que eu não tinha era vontade de sair e respirar. Bastava minha casa e minha cama.
Adormeci.
Mas não morri.
Eu até pensei que não daria conta do pranto que sobrava em cima da mesa, ao lado da xícara de nostalgia. Naquela noite, faltava a alegria (ela tinha saído com os amigos).
Nas semanas seguintes eu andei pela rua, e lavada pela chuva em alguma esquina, encontrei a cura da minha alergia.
Veio em forma de abraço, embalado com o badalo do sino das dez da noite, com a brisa da estrada cheia... Veio em forma de sorriso de anjo, em caminhos de veia...
O ano foi bom, foi pleno, foi puro. E dessa vez eu aprendi a reconhecer quando é veneno.
Não me faltou nada, apesar de entrar em contradição a cada vez que paro pra pensar e reviver alguns momentos.
Foi leve feito vento.
Consegui descansar.
Agora eu sei o que fazer, o que buscar.
E eu vou encontrar.
Tudo depende do início.
Bom 2009,
Que não lhes falte serviço.
Rebecca Garcez.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Mente enlouquecida, cabeça colorida.
Branco, verde, rosa choque.
Preto azulado.
Cerebelo embriagado.
Eu sou o homem das faces e feitos.
Essa é a minha arte.
Até amanhã de manhã,
e muito obrigado!
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
A cama e a fama.
E o cabelo cheirava a vapor de erva cidreira. Cheirava aquela rua estreita.
Aquelas esquinas frias. Aquela vida vivida.
Aquelas meninas.