terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A doida da Rua 14

Eu tenho que ir ali pegar o cortador de unha, ta precisando mesmo de uma poda... Não ta? Ou só tirar o esmalte já adianta? Estou bem pouco me lixando... Será que se eu lixar... Melhora?


Acho que ouvi alguém bater na porta. Pode entrar, meu senhor. O que deseja?

Quem? Alice? Não... Alice não morreu não. Sabe por quê?


*Sussurrando* Ela ta ali em cima, dormindo. É... Ali em cima sim! No meu quarto... Por isso que eu fico aqui na sala, entende? Você não entende... Não pode entender... E fala mais baixo senão ela desperta.


Ah... É tão lindo ver ela acordando... Aceita um chá?

Se aconchegue... Eu vou ali pegar o jogo de xícaras.


Esse aqui eu ganhei no meu casamento... De uma tia minha do Peru. Bonito, né?

Os outros quebraram na mudança. Meu marido, coitado, ficou arrasado quando viu que perdemos as taças também. Ele sempre falava que ia usar quando a Alice se formasse na faculdade.


Mas aí ela dormiu e nem viu... Ele foi comprar leite, e por sinal ta demorando. Que horas são, meu filho? Já são cinco horas? Ele prometeu que voltava às cinco.


E os dias passam, e as cinco horas vão aumentando... aumentando... e pin! Nada!

Eu nem sei porque ainda insisto em pentear os fios brancos da minha cabeça e lavá-los todo dia com meu shampoo de romã depois que descasco as cebolas.


Papai adorava. Mesmo já capenga, ele cheirava meus cabelos e chorava. Chorava tanto, o pobre. Dizia que tinha medo de enlouquecer também. E eu respondia:


- Papai, o problema é a transição entre a sanidade e a loucura.


Mas eu sei bem que era mentira.


Eu não sei de muita coisa, sabe... Eu acho até meio louco falar isso. Tenho medo da minha risada descrente. Só isso que eu sinto.


Cadê o cortador de unhas? Ele estava bem aqui.

Ah meu Deus, o cachorro já está latindo pra aquele maldito gato cinza da vizinha! Não sei porque cargas d’água ela não dá logo um veneno pra ele. Roubou meu queijo ralado, dia desses.

7 comentários:

Mauricio disse...

pin!
continua escrevendo assim.
é difícil achar textos tão bons, que ao mesmo tempo têm intensidade e leveza.

Anne Martins. disse...

Eu também tenho medo da minha risada descrente, mas MUITO medo.
Que seja..vou acompanhá-la também.
Algum problema se eu te colocar nos meus favoritos?(Aquela que pergunta ja colocando, mas se tiver problemas eu tiro).

=D

Tiago Faller disse...

Ah, essa forma de escrita que tanto me empolga e faz-me sentir mil e uma coisas durante a leitura!

Enfim, acho que a transição entre sanidade e loucura não é o problema; o problema são as pessoas que a notam, isso as torna insanas.

Grande beijo...

Anne Martins. disse...

Nossa, teeeeem tempo.

Resumindo..eu estudava no providência, onde tudo começou, primeiro show..Tomás, Gb..Eric era da minha turma...enfim..nisso venho acompanhando o trajeto deles.
Lógico que pode adicionar, é uma honra.

Celo Aglio disse...

Daí eu leio o seu texto e me envergonho de não ser velho e me sentir assim!

Anderson disse...

Adoro sua historia!
acompanhava seu blog há um tempo atras, mas acabei perdendo ele, bom ter me achado assim eu não perco hehe

Beijo!

Cin disse...

Passando pra agradecer a visita e dizer que gostei daqui.
Bjos!