quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Vou narrar o que hoje vi.


Acordou plena, sem nenhuma marca de travesseiro, com hálito fresco, cabelo penteado. Foi a primeira noite que não dormiu em cima de um braço, em posição fetal. Sentiu-se livre pra esparramar o corpo e a alma pela cama de casal quase vazia. Levantou e ouviu chuva. Nessa cidade o céu sente o que embaixo acontece. Logo entendeu que alguém muito chorava, logo entendeu que algum mundo escurecia perante uma vista que ontem era viva. Tomada por medo, ligou o chuveiro e provou a água com o pé esquerdo, como de costume. Enquanto isso, ouvia alguém lamuriando pelos cantos, nada muito nítido, mas as paredes da casa condenavam o azedume. Pegou a toalha mais macia, vestiu a roupa mais confortável e a meia de estimação, a vermelha, felpuda. Ainda assim, desgostosa. Tateando por entre os móveis, mal enxergava o que pisava...

Tropeçou no degrau da sala, bateu a cabeça na prateleira, quase derrubou o quadro pintado pela tia, com as cores mais vivas. Eu me lembro. Havia um rio, dos mais azuis, uma ponte, uma árvore no cantinho, sombras, nenhuma pessoa. Seguiu a voz, ainda baixa, cheiro de fumaça de cigarro, porre de whisky, tempero, alho, cominho, talvez até uma pitada de coentro, cachorro molhado, e lá no fundinho, tinta fresca. O quintal estava recém pintado. O pintor a fitava com olhos de malícia. Um charme. Tulu era seu apelido. Bem jovem ainda, beirava lá os vinte e cinco, um sorriso inigualável, e que braços! Deu um sorrisinho maldoso, como quem pensa: "Sorte que está chovendo, vai ter que pintar tudo de novo!". De boba não tinha nada.

Desceu as escadas, foi até o porão resgatar alguns livros antigos, sonetos, folhas de sulfite amareladas, é, pergaminhos soa mais fino, mas ninguém se importa. Não são nada além de velhas verdades sentidas. Encontrou uma boneca de porcelana, Ágata, era o seu nome. Nunca gostou de outra boneca sem ser a Raquel, por isso largou Ágata lá embaixo. A roupinha estava molhada, umidade, seria? Ora, claro que não, parece até gente grande que não consegue trabalhar com magia. Era xixi. Durante anos ela ficou jogada, sem ninguém pra lhe trocar. Apanhou-a com cautela. Parecia contente.

Subiu as escadas, a boneca nas mãos, tal qual uma caixa de ovos, ou uvas, pra não quebrar ou esmagar, tocava sua cabeça, alisava suas maçãs do rosto, pálidas, ideal seria levar a um médico, ele sim saberia o que fazer. Acreditava da forma mais fiel que era gripe. Quiçá uma pneumonia, daquelas que vem com tudo, estraçalhando as férias de julho, mamãe não vai deixar andar de bicicleta nem subir na goiabeira escondida do vizinho. Não, não, não. Nem adianta apelar. Ah! Tenho certeza de que ela vai acabar desobedecendo. Que criança em sã consciência não daria uma escapadela? Ninguém notaria. E se precisar, sirvo de cúmplice. Se alguém aparecer eu grito "panela de pressão". Sempre adorei esse código!

Caiu. Caiu em si. Viu que já era tarde pra ser quem sempre foi. Viu que o eu já tinha ido embora de casa, viu que ainda nem era hora do almoço.
Levantou. Levantou de um si que talvez não estivesse lá. Viu que já era tarde pra se derramar de dó. Viu que já bastava o tanto de ré que havia dado, viu que chuva fez-se sol.

Viu que tinha nas mãos todas as notas, uma boneca, um sonho, um pouco de força, músculo e coragem pra trazer de volta o que se foi. Viu caneta, vida, vaso de flor. Amor. É! Agora, corre!


Vou narrar o que hoje vivi.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Em busca do meu fabuloso destino

Desde pequena me apaixono todos os dias. Padeiro, leiteiro, jornaleiro, inspetor, professor, encanador, colega de classe, de sorriso, de lua, padre, coroinha... O clero inteiro! Pai, filho, primo, irmão, o esquisito da estação de metrô, pelo mais cabeludo, pelo loirinho cheio de cachinhos, pelo moreno magrelo, nunca fortão, por um passarinho, por um cachorro, por uma palavra, por um olhar tímido, assustado, por cinco segundos e meio. Procuro manter o estoque cheio, até a boca, que é pra nunca faltar. Até hoje cavei meu poço, bem fundo, onde ora descanso, ora me escondo. Mas há meses não consigo sair de lá, de tanto fazer da caneta, colher. De tanto rezar deitada achando que estou de pé.
Sempre fui fechada. Sempre preferi ouvir, muitas vezes sem revidar, o tapa que o outro vinha a dar do lado esquerdo da face e do corpo. Sempre dizia não gostar sem ao menos experimentar. Foi assim com bacon, quiabo, jiló, fígado, asa de frango, palmito e cinema. Achava pobre sentar e vivenciar uma experiência onde já lhe deram os sons, as imagens, as respostas. As cores, as paisagens, os cheiros. Sim, cheiros! Cá entre nós, se cada milha da sua estrada não tem um cheiro no mínimo singular, você está seguindo pro lugar errado.
Penso que vi, durante todos os meus dias, uns vinte e sete filmes realmente bons. Bons, porém, dos vinte e sete, um me tocou. Bem lá no fundo. Não sei se a culpa é da depressão que resolveu dividir o aluguel comigo, se é da cabeça vazia, da oficina do diabo. Não sei se a culpa é do pé gelado, da maçã do rosto sem um toque, da boca sem sorriso, do café sem açúcar, da falta do doce, da dor no pescoço, do travesseiro baixo, do urso de pelúcia que há dias pede banho, do amor distante, do telefone que não toca, da tendinite do indicador direito. Da falta de peito, da sobra de leito...
Só sei que agora eu hei de acordar, e olha que antes eu nem torcia, mas pingou um gosto de saudade, essa noite. Saudade de levantar e pedir pra ver o sol. De seguir em frente sem medo da esquina, de não ligar pro calo do dedinho, de fazer carinho, de rondar as crianças da rua. De correr nua.
De me apaixonar de novo.



Todos os dias.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Dei duas voltas e meia ao redor do mundo em apenas três segundos, mergulhei no infinito, fundo, imaginei o mar passando por todos os sete pontos de um corpo torto. Virei a xícara cheia de chá, cheia de choro. Sentei no caco de vidro, dormi na parte de dentro do sapato de vinil, lá fora chovia qualquer coisa, menos chuva, desmanchava o enfeite feito de fita de cetim número um, daquelas que vovó usava pra arrematar o enchimento de filó enquanto ensinava o bê-a-bá.

Dei duas voltas e meia ao redor do mundo em apenas três segundos, brinquei de pique-esconde com o vizinho da frente, cego, segui pela avenida principal, que dá lá na feira, eu nunca vi lugar com tantas cores, nunca vi cidade de tantos amores. Lembrei daquele cheiro, acordei na beira do banco, dancei com as estátuas da fonte, vi nascer o sol sozinha, penteei os cabelos longas vezes, vesti a saia longa com guipir, daquelas que vovó costurava com todo o amor que há.

Dei duas voltas e meia ao redor do mundo em apenas três segundos, escalei o muro de pedra (bem acho que aquela casa é mal assobrada, igual a mim), chutei noventa e cinco pedrinhas até chegar no ápice da minha loucura. E não culpo bebida, homem ou escadaria. Eu culpo a corda-bamba, que balança, balança e não derruba quem tá lá em cima grudado, cantando alto suas milhares de contradições, escarrando gengibre vencido, esfarelando o paletó com pá.

Cuidado!
Qualquer dia acaba a corda, o couro e o pescoço.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Nem sei por onde começar. Prefiro começar pelo final, que é pra saber certinho por onde passar. Cansei de falar de amor, de acreditar. Cansei de acordar. Há tempos não acredito que vou mudar o mundo mudo, vontade sobra, mas força... Ah! Essa aí tá em falta no meu almoxarifado.
Levanto com saudade de deitar, deito sem saudade de levantar. Mas uma hora o joelho dói de tanto ficar dobrado. Posição fetal, posição fetal, posição fetal.

sábado, 11 de julho de 2009

Segurando um caderno preto fosco, engolindo saliva maldita, caiu na esquina depois de tanto beber a angústia que me servira no bar. Eu bebi, sequei os lábios com a manga da camisa social listrada, e olhei naqueles olhos espumando escárnio e talvez até o maldizer. Dançava fingindo ter um pingo de lirismo na cara, mas mal havia meia canção de amigo. Eu bebi, suguei as gotas pálidas com o amor que sempre carreguei por dentro até fazê-las secar, sorri para aqueles lábios encarando a covardia sem querer a ninguém mostrar.

Atuando "Treze cerejas doces", rezou antes de pisar no picadeiro porque aquilo bem era um circo e só eu sabia. Só eu ria ao ver que a platéia era papelão e de papelão se fazia a peça. E uma peça era justamente o que faltava ao trovador. Tinha mãos, pés, chão mas faltava terra pra pisar e amassar. Pra sentir, pra moldar. Cheirava a vodka rala que não tomava. Cheirava a lágrima vazia que não soltava.


Cheirava a mentira e a falsa humildade que pregava.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Já não diz coisa com coisa... E toda aquela coisa de coerência textual, foi embora no seu palco quebrado.
Cadê sua arte?
Depois de muito pecar sem poder ver, e não querer o confessar, ora, vergonha do padre é que não era, porque padre era pedra, logo ali no seu chuveiro se banhava, deixava de viver a vida só pra te ouvir.
Mas só ouviu você partir.
Cadê sua arte?
Porque pecar da cena ao encarte, sem nem ousar perguntar pra onde ia todo o dia, depois que sol dormia, traçava as estrelas no céu do quarto, nascia, todavia, após o parto, ligava pra churrascaria e pedia batata frita, farofa e feijão, uma coca de 2 litros e comia sozinho, deitava sozinho. Bagunçava os lençóis pra ficar mais quentinho e escrevia rente ao chão, rabiscava o rodapé com caneta bic vermelha de tampa mordida. Dois nomes, um coração e uma ferida.
Algema a si mesmo no marasmo, no descaso e no torresmo que tá embaixo da sua lama.
Cadê sua arte?
Se escondeu de tanto que você se partia e parte.
E a mim não engana.


Não mais.
Sem você no seu lado da cama meu mundo gira em paz.

domingo, 5 de julho de 2009

Arranho, arranho, e não sai nada.
Ou encontrei a felicidade plena, ou eis aqui o fundo do poço.

sábado, 20 de junho de 2009

Doze passos pra frente, atravesse a ponte, entre na primeira a direita e lá está ela. Linda, robusta, sempre à espera. Ninguém um dia chegou a imaginar o que se escondia por trás daquela porta de oito metros e meio, feita de madeira, toda trabalhada por finas mãos. Em volta, um vazio. Eco, sem brisa leve, chuva, muro, cor. E eu me adentrava todas as sextas-feiras tentando buscar o que havia perdido por ali, já na infância, junto com algumas peças do lego. Longas férias, invernos bem quentes, gargalhadas, asas, grama, pernas, meias e casacos de lã, rosquinhas de nata, xícaras de café, terra pra pegar, sentir esparramar pelas mãos bem devagar, e eu, sozinha, rolava pelos cheiros e finais e gostos e toques e agostos inteiros... Até se fazer presente, a amiga primavera e seus ipês, amarelo e rosa, sempre nós três, sentava embaixo das árvores, rolando pelos campos, dançando, arranhando, bebendo, deitando, sentindo...







Fugindo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Cidades vazias, ventania... Uma falta de poesia ronda a enorme maioria. Ninguém namora mais. Todo mundo acha que vai tampar os problemas com panos quentes se banhando de putaria. E depois que termina? Sobe aquele nojo, aquela simpática grosseria masculina pós-gozo de não querer que a suposta namorada o toque. E ronca. Ronca até amanhecer e levantar com pressa, sem muitas vezes, trocar um olhar sincero. Ah! O tirar da roupa apressado e o colocar mais ainda. É, ninguém namora mais.
Namorar é andar de mãos dadas, gargalhar, procurar desenhos em nuvens. Namorar é suspirar pelos cantos, é sentir saudade de ouvir a voz. Namorar é acompanhar, é ser fiel, é querer que o outro cresça independente de mais nada. E crescer junto. Abraçar, estalar os dedos, chorar até soluçar, se preocupar, fazer só o bem, compartilhar. Namorar é dar de presente bolinha perereca, aquelas de cinquenta centavos. Namorar é cerveja com todos os amigos, sentar na praça, andar de cavalinho, é não ter vergonha de dizer a verdade. É não ter medo. Dar proteção. Namorar é construir um sonho novo a cada dia. É planejar, é o querer verdadeiro. Olhar a lua, cair de bicicleta, desenhar jacarés, sentir a respiração. É andar de ônibus e esperar o destino chegar na sua janela.

Namorar é ser amigo... Mesmo que não passe disso.

Dia 12 de junho, dia dos namorados.
Alguém aí vai comemorar?

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Inspira, ação.

Bem como em cinema, depois que se... claqueteia? Nesse frio eu atuo em período integral dentro da minha própria casa. Já salvei uma vida hoje, mas nada além da minha. Não que eu seja egoísta a ponto... Não, definitivamente! Hoje já beijei, já despi, já briguei, já bati o telefone sem dizer um eu te amo. Audácia! Parece que tenho lá meus oito anos. 

Depois de tanto, resolvi botar meu chapéu de cowboy que estava em cima da vitrola velha, botina, matinho no canto da boca, até fazer nascer um rebolar em meio a sala bem dotado de outras vozes que só eu ouvia. Ainda bem que aqui eu não pago nem um centavo de consumação. Uma garrafa inteira é o que me doma e domina, aos poucos.

Agora, se me dão licença, vou tomar mais uma dose de amor. O garçom já está rondando a minha mesa. E parece que tem pressa pra servir e receber a gorjeta.