quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Em busca do meu fabuloso destino

Desde pequena me apaixono todos os dias. Padeiro, leiteiro, jornaleiro, inspetor, professor, encanador, colega de classe, de sorriso, de lua, padre, coroinha... O clero inteiro! Pai, filho, primo, irmão, o esquisito da estação de metrô, pelo mais cabeludo, pelo loirinho cheio de cachinhos, pelo moreno magrelo, nunca fortão, por um passarinho, por um cachorro, por uma palavra, por um olhar tímido, assustado, por cinco segundos e meio. Procuro manter o estoque cheio, até a boca, que é pra nunca faltar. Até hoje cavei meu poço, bem fundo, onde ora descanso, ora me escondo. Mas há meses não consigo sair de lá, de tanto fazer da caneta, colher. De tanto rezar deitada achando que estou de pé.
Sempre fui fechada. Sempre preferi ouvir, muitas vezes sem revidar, o tapa que o outro vinha a dar do lado esquerdo da face e do corpo. Sempre dizia não gostar sem ao menos experimentar. Foi assim com bacon, quiabo, jiló, fígado, asa de frango, palmito e cinema. Achava pobre sentar e vivenciar uma experiência onde já lhe deram os sons, as imagens, as respostas. As cores, as paisagens, os cheiros. Sim, cheiros! Cá entre nós, se cada milha da sua estrada não tem um cheiro no mínimo singular, você está seguindo pro lugar errado.
Penso que vi, durante todos os meus dias, uns vinte e sete filmes realmente bons. Bons, porém, dos vinte e sete, um me tocou. Bem lá no fundo. Não sei se a culpa é da depressão que resolveu dividir o aluguel comigo, se é da cabeça vazia, da oficina do diabo. Não sei se a culpa é do pé gelado, da maçã do rosto sem um toque, da boca sem sorriso, do café sem açúcar, da falta do doce, da dor no pescoço, do travesseiro baixo, do urso de pelúcia que há dias pede banho, do amor distante, do telefone que não toca, da tendinite do indicador direito. Da falta de peito, da sobra de leito...
Só sei que agora eu hei de acordar, e olha que antes eu nem torcia, mas pingou um gosto de saudade, essa noite. Saudade de levantar e pedir pra ver o sol. De seguir em frente sem medo da esquina, de não ligar pro calo do dedinho, de fazer carinho, de rondar as crianças da rua. De correr nua.
De me apaixonar de novo.



Todos os dias.

4 comentários:

Tiago Faller disse...

Uma das coisas que acho mais fabulosas de vir aqui, além da tua forma de escrever, é o fato de eu sempre me encontrar em alguma linha, parágrafo, ou todo (por que não?).

Seja benvinda novamente, tua alma transparece e completa, mesmo sem querer.

Celo Aglio disse...

Poxa, minha querida, vc me enche de alegria com um comentário desses! *____*

BTW, achei ótimo que estejamos sentindo a mesma coisa: a continuidade da vida é inevitável, nossa cura e danação. A mais deliciosa sina que temos a sofrer, mas não sem antes completá-la com poesia, do jetinho que você fez agora!

Um beijo

Celo Aglio disse...

Poxa, minha querida, vc me enche de alegria com um comentário desses! *____*

BTW, achei ótimo que estejamos sentindo a mesma coisa: a continuidade da vida é inevitável, nossa cura e danação. A mais deliciosa sina que temos a sofrer, mas não sem antes completá-la com poesia, do jetinho que você fez agora!

Um beijo

Ivete disse...

Bonito, Rebecca.Gostoso de ler, mas o mais importante foi esta frase final.Porque se apaixonar é tudo de bom.Paixão move a vida, seja ela qual for!
Beijos