sábado, 22 de janeiro de 2011

Ontem eu saí. Estava em casa, fui comprar bebida, voltei, bebi, me arrumei, bebi e saí.

Saí como quem sai de si pra procurar algo por lá. Ali fora era frio e tudo o que eu via escapava dos meus olhos. A cada compasso um grupo puxava o foco, num jogo cênico involuntário.

Não faz sentido algum desejar a superfície. Eu passava e aqueles homens passeavam as mãos na minha barriga, pegavam no meu braço, murmuravam meias palavras numa disputa carnal que parecia valer a vida. E valia. Valia o ego e isso pra eles era um inteiro.

Me deu saudade de me sentir desejada por dentro, saudade da conquista, dos começos, dos meios e dos recomeços. Me deu saudade da saudade. Da espera, dos suspiros, dos atrasos, dos descasos, do desgaste.


Cheguei a suplicar pela despedida.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Destilei minha piedade. Gritei. Ela abriu os olhos.
Continuei arranhando o antebraço, pra que sentisse minhas unhas afiadas. A mordaça começava a sufocar. Abafadas, as súplicas não me pareciam audíveis. Que pena.
Vai ter que continuar amordaçada, sem dizer o que precisa. Você não diz o que sente, não pode. Não me venha com esse ar de gente que sente. VOCÊ NÃO SENTE. Não aprendeu o que ensinei, é isso que acontece com quem não faz lição de casa.
Lembrei da lança de cobre afiada exposta na sala, porque eu gosto de ostentar. Doze passos daqui até lá. Encarei aquele rosto, macio, os cabelos cheirando a romã. Saí me enroscando por entre as paredes, por entre as lembranças, me enroscando até chegar onde eu queria. Agora faltam sete. Me curvo diante do que me parece reverenciável, diante do sangue, da dor, da lágrima quente que escorria daqueles olhos castranhos. Não me dei por satisfeito, ela estava quieta demais. Ameaça é coisa de gente fraca. Inocente. De gente que sente e acorda com a certeza de que todo mundo sente a mesma coisa... Idiotas. A ferida aberta da perna direita me chamava atenção. Não pude resistir, precisava cavar a dor, precisava fazer com que ela soubesse da metade do que passei depois que fechamos a caixinha de música. Fiz duas cicatrizes nas maçãs do rosto, bem fundas.



Que é pra ela nunca me esquecer.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Um quadro em preto e cinza ocupava a parede principal do quarto vazio. O inverno de uma cidade distante me beijava e dizia boa noite sempre as 9:38, após lavar bem as mãos. Mania. Ajoelhava, com o terço apanhado e suplicava proteção. Enquanto o sereno, sempre sutil vinha deixar a alma ainda mais fria. O coração, a bater bem fraquinho, já não tinha cor. Tal qual o quadro. Faltava um amarelo ouro, azul piscina, rosa, vermelho, verde e o tom alaranjado pra finalizar o nascer do sol que não nascia. Porque era inverno. Era inverno em uma cidade distante e o filme que passava era o mesmo, todos os dias.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Retroexpectativa II

2010 foi o ano que plantei meus pés em terra fértil.

O primeiro minuto desse todo que agora nos deixa foi o início de todo o aprendizado. Há quem dispense as lições que se mostram na nossa cara, mas nunca fui de não valorizar o lado bom do sofrimento. Um beijo, um abraço, quatro olhos se encarando, transbordando verdade. Transbordando o sentimento mais amador do mundo. O amar. Começa o ano com um show da Blitz em copacabana. O mesmo amar, alguns meses depois, aprontou as malas e se foi, como quem usufrui do direito de ir e vir.

Como todo bom carioca, o ano útil parte de março.
Minha primeira aula de teatro foi no sexto dia. Ao pisar na sala de aula senti a certeza subindo pelas minhas pernas. Era exatamente a sensação que eu esperei a vida toda.

Em abril, depois de um súbito ataque de loucura na dona da república que eu morava em Niterói, fui mandada pra fora do quarto. Do quarto, da casa e da vida daquela mulher. Incrível como as coisas acontecem, como você questiona tudo o tempo todo, como você sempre está errado e como o erro é sempre certo.

Sem mais metáforas, em maio comecei a trabalhar. Meu primeiro emprego me fez ter muito mais do que experiência pro currículo, me deu presentes, pessoas e palavras que estarão no texto sobre o meu satisfatório 2011.

Junho sempre me faz nascer de novo. Essa foi a décima nona vez.

Em agosto, a doce Dulce nos deixa. Depois de ensinar as mais bonitas lições, de escrever dezenas de orações, depois das melhores cantigas de roda, depois de tanto me sentar na cadeira de balanço, às 6 da tarde, junto com o sino da igreja, parou de respirar. Mas de me cuidar ela não deixa nunca.

Agosto foi ao pé da letra, o mês do cão.
Agora sozinha, acolhida embaixo dos braços do Cristo Redentor, me sentia ainda assim descoberta. Sem amigos, sem família, sem eu mesma, a maior paixão da minha vida me levou até os melhores do Rio. São Paulo e Fluminense, maracanã, o apito indicava o começo do jogo. Jogo que dura até hoje pra mim. Conheci pessoas incríveis que me deram força pra continuar a caminhada.

Em setembro conheci um amigo incrível. Me pediram pra estar sempre por perto, pra que eu tente fazer uma ligação entre dois mundos completamente diferentes. Tento conduzir de uma forma confortável e sutil, sei que os dois lados já perceberam porque eu vim. E eu sei que vim e vou ficar.

Outubro e novembro de doce não tiveram muita coisa. Os preparativos pro final do ano já estavam a todo pano, quando nos mostraram uma doença rara e complicada em uma das raízes da família. Ao invés de desestruturar, fiz de tudo pra ajudar a família a se contruir de novo. Alicerces fortes e robustos é o segredo de toda a arquitetura.

O último mês do ano me deu o melhor presente de Natal. Pisar no palco, sentir o público, encarar, bater no peito, fazer com verdade, com vontade, com prazer e logo ouvir ensurdecedores aplausos. Aplauso? Por estar fazendo o que mais me deixa feliz? Aplauso pra... mim?

Um aplauso pra vida, plena e sempre certeira. Que faz o errado necessário pro nascer do próximo acerto.
Que faz a dor se transformar em felicidade num piscar de olhos. Que faz do amor, ódio. E desvira de novo essa camisa. Que recicla as relações, as pessoas, os dias.
Que nos permite tentar de novo.

Então vamos lá, tentar fazer tudo perfeito mais uma vez.
Em 2010 eu só plantei.
Agora é hora de começar a colher.



Um bom ano, uma boa vida.
Rebecca Garcez



Agradecimentos:
Família Strachan, Fábia, família Marquez, Paulo Henrique Motta, Juliana Valin, Madjer Geanini, Victor Afonso e toda a turma de Iniciantes I do Curso de Teatro Zaira Zambelli, Maíra Duque, Tainá Scharra, Pedro Hilário Dantas, Felippe Gomes, Agatha Galvão, Francis, Raphael Castro, Lucas Zanini e todo o pessoal da cmm, ao Fluminense, por me dar momentos de felicidade extrema e por me ligar a pessoas tão incríveis, Isabela Herig, Thamires Vasconcelos, Jéssica Santos, e a toda a minha família. Vocês foram primordiais pro sucesso desse ano que passou. Meu apoio e amizade à vocês, sempre.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Essa sou eu. E esse é meu mau humor quando acordo.
Odeio essas paradas de meia hora que os ônibus fazem em Resende. Nunca sei se fico esperando, encalorada, do lado de dentro, ou se saio pra ir ao banheiro cheirando à pinho sol.

Saí. E daqui de fora me vejo lá. Essa sou eu.
Descabelada e sem motivação nenhuma pra arrumar os cabelos. Não tem ninguém interessante por aqui. Quando digo ninguém englobo uma quantidade enorme de pessoas num raio relativamente pequeno. Desde quando larguei tudo o que tinha na lixeira numa quinta, que é quando a Comlurb passa na minha rua recolhendo o lixo, me bateu uma canseira do mundo... E não me arrependo, não.

Os espelhos desse banheiro sempre me agradaram bastante, mas agora eu quero é mesmo que se espatifem, em milhares de pedacinhos. Lavei as mãos como quem tem a remota esperança de ensaboar os problemas e vê-los escorrendo pelos ralos junto com a imundície que carregava entre os dedos. Fui me arrastando até a banca de jornal onde paquerei meias manchetes. Tricampeão. Sorri. Sorri e me arrepiei dos pés a cabeça, lembrando da emoção ao ouvir o apito. Ao piscar os olhos já voltei pro chão que piso. Piso e sinto o peso da carga.

Talvez eu esteja cansada.
Com certeza é cansaço. Eu costumo não ter a percepção do que vem de dentro mas dessa vez foi um pouco diferente.

Essa sou eu. E essa é minha falta de fé quando me importo.
Tentei me pescar de volta, mordi a isca. Mas o pescador, que era eu, resolveu me desprender e soltar de novo no mar de nada.


Mas nada!

Mais nada.


sábado, 27 de novembro de 2010

"Eu costumava ser intensa. Não era um dedo da falta de ser que sou hoje.

Vou contar meu segredo pra esse enorme espaço vazio. Eu odeio salto. Eu odeio parecer igual a todas aquelas meninas. Eu tenho nojo de gente rasa. Detesto parecer normal, não transparecer...

Eu escrevia cartas! Cartas pra pessoas que eu não conhecia! Enviava pra qualquer cep em enormes envelopes coloridos. Era incrível a felicidade da pessoa que recebia.
Aos 16 me afogava no sofá da sala ouvindo Death Cab.
Adorava abraços.
Hoje em dia eu fujo deles. E se me dão eu choro. Choro por vergonha só de me imaginar chorando, e o desespero sobe pelas minhas pernas, tento fazer força pra engolir o que quer fugir de dentro, o pouco oco que resta, mas é sempre impossível.
E assim me acabo a cada gesto de carinho.

Eu costumava sentir sem medo. Não tinha um pingo do controle que me freia hoje.

Vou cantar minha verdade pra esse imenso eu que sei que escondo aqui dentro. Eu não culpo ninguém. Eu não culpo nem os ciclos. Eu fui avisada. Muito bem avisada. E preciso me resgatar o quanto antes.
Vocês não me conhecem. Nem eu me conheço mais.
Respondam rápido:



É melhor apanhar do sentir ou viver sem amar?"

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

E virou um monstro.

Depois de tantos tapas, de tantos beijos, de tantas faltas
Depois de tantos almoços, casa, canto, de tanta mão
de tanto ombro, encanto, peito e coração.
Depois de tanto sim.

Depois do desamor
e daquela última carta-resposta
Depois da nota, do tato.

Depois dos doze adeus.


Eu virei um monstro.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O clima era o mesmo de sempre. Péssimo! A diferença era o lápis apontado. Bem apontado. Nossa, como eu amo lápis bem apontado. Com certeza está na lista de coisas idiotas que fazem toda a diferença. Igual sentar do lado esquerdo do ônibus.
A lamparina fazia sombra no topo do lápis, ficava ruim pra enxergar. Mas a ponta bem afiada compensava.
Sentou na mesinha em frente a entrada. Os velhos chegavam tirando fotografias. Será que estava em um lugar histórico e não sabia? O gordo de verde encostado na porta do banheiro responde. A cara feliz e as pernas inquietas condenavam o nervosismo.
Sinceramente eu nunca fui de escrever contos. Relutei até resolver pegar o caderno pra rascunhar. Hoje eu estou pra conversa! Peguei o celular pra passear pela agenda sempre começando pelo Z. Estava dormindo. Pulei pro R que não atendeu, depois pro F que ainda não tinha chegado da faculdade e quase me rendi a letra G, já girando o apontador, nessa altura do campeonato a ponta ficara levemente arredondada.

Eu estava em verdade ansiosa. Ociosa. E odeio chorar por pouca coisa. Vai falar que eu não to na merda?

Canceriana, atriz, escritora, colesterol alto e tricolor. Um combo que nasceu junto comigo literalmente pra me matar do coração. Mas não dispenso nenhum desses traços que não o colesterol.



É genético.

Juro que evito fritura.

Ensaio sobre a visão

Deveriam fazer de mim um rei.
Não digo rei, mas ao menos um vidente.
Sou de fato sensitivo, não gosto de nada tão restrito, vivo a te imaginar...

Se eu tivesse visto meia pontinha do seu mundo, te entregaria uma bandeja e um prato fundo de vivência.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Eu sou feita de todos os pecados. Não, de todos não... Só dos piores.


Engoli seco quando saí de casa hoje pela manhã. Ao atravessar, um caminhão quase me junta pra formar uma só. Por meio centímetro não me lasco! É, pois é... Eu sou muitas. Sou tantas que perco a conta. Não queria que fosse dessa forma, poderia ser constante do início ao fim mas essa teoria me parece um tanto quanto falha (e olha que falha me agrada bastante!). Eu sou muitas. Sou uma pra você, uma pra ele, uma pro ex, uma pra amiga, uma pra mãe, uma pro espelho do banheiro, eu sou muitas. Sou muitas pra mim.

E não ando dando conta.

Não ando dando conta das contas, do trabalho, dos ensaios, de todo o esforço físico, ser tantas assim me cansa. Tentei ir à missa, dobrar os joelhos, suplicar qualquer dádiva, mas acho que Deus preferiu rir de mim, de lá de cima. Não por deboche, longe dele! Deve ter me confundido com outra de mim.

Não ando dando conta.

Não ando dando conta dos cantos, das verdades, das saudades, de todo o espírito, ser tantas assim me cansa. Tentei recuar, me dobrar em posição fetal, desmembrar uma perda, mas acho que eu preferi rir de mim, daqui de dentro. Não por deboche (deboche também me agrada bastante!), mas por descrença. Devo ter me perdido por aí. Mas garanto que falta não faço.




Eu sou muitas.