quinta-feira, 16 de abril de 2009

Espião espionado

(escrito em 26 de agosto de 2008.)

Um pequeno espião me seguiu e levou embora o que ele viu. O que se viu e se levou, voou, serviu de aviso pro espião desavisado, ora, faz-se louco, desvairado, ao olhar o tablado e perceber que não há ninguém a representar.

Mas a percepção é errada, tem areia, céu, e até estrada em um palco estreito, e o ator impõe respeito de lá de cima, ao dizer que sua rima saiu de dentro do seu eu.

Eu levei o pequeno inocente, frente a tanta gente, gente contente, gente carente, gente doente, e então ele saiu.
Correu, caiu, correu, caiu.

Não mais levantou.

Pois bem, eu esqueci o que não me convém.
E quem ficou, viu, viveu, entendeu, a história pra outro contou?

terça-feira, 14 de abril de 2009

A ante até após, com contra, de desde durante.

Meus dedos adormeceram, me obrigando a escrever no pergaminho da mente. De repente, eu apaguei. Já tinha cansado de mastigar todas as noites a mesma solidão. Alguém aí me dá uma nova? Se bem que solidão, uma ova. Eu vivo rodeada de vidas, amigos, amores. Mas ninguém no mundo todo há de suprir aquela falta. Pois então eu fico aqui. Aqui, ali, lá... Bebo até cansar, pra depois perder tudo pela pele, pelo pêlo, papel, pena. Que pena. Perdida na madrugada que eu não tenho, é só sol. Só sol. Maldita luz. Se ainda fossem duas ou três... Mas não! É só uma. Só a do sol. Só ele mesmo pra ser iluminado à essa altura do campeonato. E nem estou falando de futebol... Não ainda. Mas eu bem queria.

Analgésico também serviria. Antibiótico já não adianta. Sabe quando o corpo se acostuma com o veneno que escorre por dentro e se torna imune?
Igual ao meu assassino que ficou solto por aí, impune.

Amarelinha pra brincar eu bem queria... Melancia pra me lambuzar. Adjetivo pra qualificar. Escova pro cabelo, pentear. Música para aos ouvidos encantar. Advérbio pra intensificar. Gosto pro mundo todo saborear. Artigo pra definir. Cores e caras pra pintar. Conjunção pra me conectar.
Triste final, o meu.



A droga que eu preciso, esqueceram de inventar.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mais relatos de loucuras de amor em vão.

(...)


"Fiz o palco do teatro pegar fogo por causa de algumas palavras, rasguei a roupa no meio da avenida, me joguei do abismo da Rua 14. Conversei meia hora com a Doida. Voltei pra casa sábado a noite.



Sem ninguém."

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Disparo de disparate

A ferida que coça, a água que dança pelos olhos cerrados, a mão e a bolha de sabão, a rima toante e a consoante, o fino fio roçando a ponta do nariz, a cutícula e o dedão, o mosquito e o dedinho do pé, o recheio da torrada atraído pelo chão, a velha cega e a padaria, a criança beirando as calçadas, o calo beijando o seu tênis novo, a neosaldina e a dor de cabeça. O espelho perdido na bolsa. A bolsa perdida nos braços. Os braços perdidos no vento. O vento perdido no tempo. O tempo perdido em mim. Eu perdida em meu templo, o templo perdido no mundo.



E o mundo perdido no fundo. Do poço.
O choro da criança, o riso do velho e a trapaça do moço...


Nada mais incomoda.



Fingir que quem corre é a avenida e não o carro virou moda.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Pedante.

Partículas de poder partiram o peito do pobre perdedor que praguejava a pereba pequena. Posso perguntar o por quê?

Posso? Porque pedidos e palavras se perderam pelo palco. O porre de picanha e pistache perambulava pelo plágio paciente, pois no principio do meu período pacifico, o pássaro não tinha pena nem pêlo.

Era pura purpurina.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Doce Dulce.

Cantou por noventa (e tantos!) anos ao pé do ouvido dos netos, a canção que ouviu por tantos e tantos anos saindo do peito do avô.
Mas aos poucos, a voz falha, a perna cansa, o peso pesa. Já suas palavras nunca morrem. A cada dia que acorda, cria um novo acorde e uma oração.

"Que horas são?"
"São seis e meia."

E de meia em meia hora, a enfermeira ia lá pra fora e lia de jornal a rótulo de inseticida.

Ah! Como eu me lembro da infância ralando o joelho, mas rolando de rir... E na ameixeira eu subia até cair, sempre levantando com o pote e a boca cheia.

A última vez que a vi, foi há alguns dias. Segurou minhas mãos de forma doce e rezou pra que eu, segura, pudesse partir.

E eu fui, mas ela ainda não. Está cansada demais até para o eterno dormir.
Acontece que eu é que não volto! Ir pra casa pra quê? Pra ver, sem querer, um alguém tão querido padecer por causa de tanta ferida?

"Que horas são?"
"São sete e meia!"

Sete flores. Sete versos. Sete cores.

Ainda posso ouvir ela cantando sua cantiga preferida, enquanto me segurava no colo, ainda pequena.

"Tic tac, cambarola. Bate dentro, bate fora!"

E hoje sou eu que canto, lembrando sempre do seu manto e secando todo o pranto.

"Tic tac, cambarola. Bate dentro, bate...
...bate...
...bate?"

quinta-feira, 26 de março de 2009

O inconformado.

Toda quinta-feira, descia a rua principal gesticulando e fazendo cara feia pra quem passava. Xingava a brisa, pisava forte, balbuciava meias palavras, pensava meias metáforas. E se jogava fora. Pegava fogo, cuspia. Era sempre o certo, era sempre o coitado, o prejudicado.
Nunca o predicado! Sujeitinho mal caráter... E eu julguei mesmo. Lembrava da cara feia o tempo todo, enquanto andava, enquanto comia, enquanto sambava, enquanto ria... Enquanto eu ia...

Ia, ia, ia... Aí me lembrei do dia em que dei tchau pra covardia e esqueci a melodia exatamente ao meio dia. Era 12 de janeiro, eu achava que tinha deixado o riso inteiro, mas percebi que ele me acompanha.
Quem ficou pra trás, só ficou.


Ficou com as frustrações que tentou colocar na minha mala.
Mas vou te contar bem baixinho, quase sussurrando:
A verdade é que a vontade é a visitante mais passageira!
Fui mais esperta e acertei a nota! Pensou que foi ligeira...

E levou uma rasteira.


O segredo é sempre esse!
Esquecer o que joga, o que xinga e o que frustra.
Junta tudo numa trouxa, tal qual a roupa suja.
A diferença é que não se lava. Bota tudo na lixeira.

Incrível!


Hoje em dia o povo tá sem eira nem beira.

sábado, 21 de março de 2009

Engolindo o seco

Acordei pisando em falso hoje cedo. Chutando a memória pelo quarto, tropeçando nos sentidos...
Seria perfeito se eu relatasse aqui, uma carta qualquer sem nenhum sentimento.


E depois de tomar meu café amargo com pão amanhecido, só consegui pedir forças pra conseguir viver até daqui a pouco.




Mas mais parece daqui a tanto...

sábado, 7 de março de 2009

Bar, doce bar.

BARGANHE! - E berrava cuspindo os goles que acabara de engolir. Em parte, é claro. De uma dose, tomava metade. Um pouco caía pela mesa, e da mesa ia ao chão, escorrendo feito o ódio em seu corpo.

EU LÁ TENHO CARA DE QUEM ESPERA A VIDA INTEIRA? - E se perguntava, impaciente. Quase de forma indecente... Tinha pressa, muita pressa. Sabia muito, sabia de quase tudo. Ou achava que sabia.

ME DÊ MAIS UMA, E CAPRICHA, PORQUE AMANHÃ QUERO NÃO ACORDAR.


Ou acordar e não lembrar das perdas e danos que não foram processados.
Dos processos que não foram ganhos.
Dos ganhos que se transformaram em perdas.
Das tantas cordas que não quiseram me enforcar.



Eu não queria mais respirar...

quarta-feira, 4 de março de 2009

Aflora, flor.

Ora, ora, ora... Pois não importa se os poetas ficam a encantar ou vão embora.
Não importa se flor se rega
ou se só chora.
Não importa nem a hora...
Se se machuca por dentro, ou por fora.

Desde que levante pela manhã e suspire
Desde que sonhe a todo instante
Desde que seja capitã do grande navio e navegue à todo pano...
Que faça do pouco, o inteiro.
E sorria...
Pode se considerar flor, Flor.

Leve feito ar, grande feito mar, nobre infinitivo do verbo AMAR.
Porque este existe e nos alimenta. Não venha me dizer o contrário só por ver padecer aquele que não fez por merecer. Que teve a doçura de seus toques e rimas... E mesmo assim quis ir embora pra casa.

Veja só o que tenho a lhe contar. Escrevi em um pequeno guardanapo, a grandeza desse segredo, e se pudesse lhe enviaria, pra que fosse lido se, por acaso, chegasse a cambalear pelas calçadas.

"Se dotadas de amor, equilíbrio e tranparência
Todas somos flores.
Cada qual com sua essência.
Cada qual com suas fraquezas e dores...
Amores."