terça-feira, 13 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

Carta ao pai

"Pai, o senhor hoje recebe esse substantivo sem tê-lo merecido em nenhum dos dias em que se levantou da cama. Passei toda a minha minúscula vida me perguntando o motivo de toda essa repulsa, pesquei no íntimo de minha amada mãe qualquer justificativa pouco plausível pra me (te) aliviar. Depois de uma conversa de bar, onde eu bebia copos e copos descartáveis de cerveja barata me vi vivendo um dia ao seu lado. Só eu e você. Engraçado que nunca tinha pensado nisso até que me dei conta de quão inimaginável essa cena se torna. Não te conheço. Não sei o que faz da vida. Não posso nem cogitar o que faz no almoço de domingo, com que gasta seu dinheiro, como se diverte, onde consegue seu fumo, como sua mulher te trata e como ela é tratada. Se o cachorro faz no jornal. Não sei se sabe cozinhar, e se cozinha, não sei se tempera seu frango com limão ou curry. (Caso cozinhe, experimente curry no arroz.)

A terapeuta passou uma lição de casa. Caminhar até o advogado, comprovar que sou obra de seu esperma, entregar cópias de documentos comprovando que sou de fato uma obra, onde resido, qual a sequência de números que me representa, pro advogado levar pro fórum da cidade e depois disso não sei qual é o procedimento legal. Só sei que você vai receber uma carta. Não essa. Outra. Uma carta chamando você pra conversar comigo por algumas horas, minutos, talvez. Depois dessa conversa uma parte do seu salário que nem sei se tem vai ser destinada a mim todo mês.
Acho que a terapeuta quer te mostrar que eu nasci, não sei... Mas vem conversar comigo.

Prometo não fazer birra, pai."

domingo, 11 de março de 2012

É duro, José
é duro ir, vir, ficar
é duro passar o dia inteiro em pé
raspando a unha no corrimão
demente, doente, corpo são

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Empurra-empurra

Existe, nos dias de hoje, uma rua muito esburacada perto da minha casa. A calçada parece pedra-pomes e o meu saltinho fino fica prendendo toda hora até que eu caí.
Liguei na prefeitura pra reclamar e aí se desencadeou aquela tática infindável dos atendentes de telemarketing que te transferem pro outro setor e outro e outro, fazendo você arremessar o telefone longe e ganhar o primeiro lugar em lançamento de dardos.

O que acontece: Preciso muito de muita massa corrida, cimento, pedreiro, trabalho duro ou qualquer coisa que o valha pra reconstruir tudo isso.






Caso contrário corro o risco de quebrar as pernas.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Em tempos de angústia contida

De repente a serpentina deixou o caimento fazer-se leve feito pena, e que me leve!
E que por duzentas vezes me lave pra eu poder contar até uma dúzia enquanto espero balançando as perninhas, tal qual minha prima que aos seis se deita de bruços na hora de desenhar coisinhas, diz ser papai mamãe irmã e eu nem sequer os reconheço. Meu lado de dentro sente saudade do seu.


E de repente o tempo todo suspirava pelos cantos rindo da cara que eu fiz de início, com o marasmo e maresia daquela praia poluída dos pés a cabeça, mas quem liga? De fato você tem razão quando diz que eu não acreditava tanto assim em tudo aquilo que estava prestes a acontecer - que agora acontece e é uma constante.
Dê-me florete, espada e sabre pra eu praticar meu esgrima contra todo contratempo, porque o meu lado de dentro sente.










- Touché!






B.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2 mil e ONZE

2011 foi, de fato, o ano do onze.


Geralmente escrevo sobre meu ano no último dia dele, que é pra finalizar o ciclo de uma vez por todas e me considerar limpa depois dos fogos.
Não o fiz talvez pela correria no trabalho, em casa, nos preparativos, mas acho que cabe dizer aqui que quis fazer da virada uma vírgula e não um ponto final.

Meu ano foi crescimento. De janeiro a, nesse caso, janeiro.
Comecei sem lar, sem faculdade, sem emprego, sem par e ao mesmo tempo com tudo. Assisti a festa da Avenida Paulista no apartamento enorme da Susi ao lado da família, rindo, comendo, aproveitando os tios e primos. Depois voltei pra cidade de sempre, na casa de sempre, com os móveis de sempre pra esperar o resultado do vestibular.
Passei, me matriculei, me desesperei atrás de casa até voltar pro Rio e dar início a isso que não quero finalizar aqui, como disse ali em cima. Pra quem nunca tinha trabalhado, mudei de emprego três vezes. Encontrei no meio do caminho uma pessoa que é de verdade. Troquei de casa, pulei de galho em galho, aprendi a fazer abobrinha recheada, a usar máquina de lavar. Aprendi a não faltar com os compromissos só porque tá chovendo e parei de inventar dor de cabeça pra mamãe me buscar mais cedo.
Aprendi.


No tempo dos homens estamos entrando em mais um bloco de vida, em mais uma chance, em mais promessas de começar a dieta na segunda. Eu só quero continuar o que comecei ano passado. Continuar a crescer sem parar, a aprender, a fazer com que as coisas se movam de fato sem ficar reclamando no sofá comendo trakinas. Quero conquistar meu espaço, construir minha casa, valorizar e tentar fazer com que meu exterior diga um pouco mais sobre o que há do lado de dentro. Quero mais cor. E nada disso me soa como meta.
A meta desse ano doze é deixar de lado os maus hábitos. O resto eu já aprendi como faz.

É só continuar buscando.







... Aí eu passei a virada de azul.

domingo, 2 de outubro de 2011

Desleixo

Eu adorava escrever assim, como quem não quer nada.

(Hoje em dia não fica coeso.)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

"Aqui na Urca é só milionário!"

Balbuciava ao se mostrar lúcido por inteiro, passando pela cabeça sem cabelos, o peito sem camisa, joelhos, pernas e pés sem qualquer calçado.

"Vocês dois aí! Milionários! E não dão nada. Nem olham pra gente, a gente fala sozinho pelos cantos e vocês são milionários! Cês tem casa, tem carro, tem dinheiro pro mês inteiro, aí nem precisam falar com ninguém...


Coitados."


E quando não consigo virar a angústia em arte eu deito sem me preocupar com os cabelos. Que bem me importa se eles caem, amarrotam e desamarram, os penteados já passaram do tempo, não se usa mais coque quem dirá um permanente. Terapeuta também saiu de moda e rascunhar um conto erótico talvez pudesse me adiar o melodrama.

O pior pesadelo de quem faz do choro cor é não ter aquarela pra compor as paredes.


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Me internaram há 7 anos e há 7 anos eu não sei que horas são. De um sonho insano pra cá eu acordo em cima desses lençóis azuis da Clínica Mariana.
Sempre vi loucura onde não tinha, e quando havia eu era cega. Até que numa única vez a claridade fez com que eu notasse o feixe tênue que me separava dos ensandecidos. Talvez vocês nem concordem, talvez achem que é coisa da minha cabeça e talvez até seja. Mas da ponta daquele iceberg eu não vi só dez por cento. Eu vi três, eu vi dois. Eu vi nenhum.